Fallout 2: Taken by the Wasteland
“War... War never changes”
Boa noite. São
1h da manhã, eu já deveria estar dormindo há muito tempo, mas estou iniciando
esse rascunho que se tornará um artigo inteiro sobre Fallout 2. Faz alguns dias
que esse jogo tem me tirado completamente o sono e o foco de outras atividades. Não consigo dormir após parar de jogar, fico pensando em todos os
aspectos que envolvem o game. E durante o dia, no trabalho ou quando estou
fazendo qualquer outra atividade, ainda estou pensando
nele. É um jogo de 1998 com visão isométrica e nem eu entendo como pode ser tão
envolvente. É sem sombra de dúvida um dos jogos mais imersivos que já joguei.
Neste artigo eu
vou contar como foi minha experiência com o jogo, como foi ter a ideia de
jogá-lo até o momento em que escapei lágrimas vendo os créditos finais. Contarei das dificuldades, dos desafios, dos problemas e das
recompensas. E por último darei algumas dicas valiosas para quem se atrever a
encarar essa jornada até o fim. Digo isso pois, poucos são os que começam e
menos ainda os que terminam.
Fallout 1 é uma
história à parte. Também foi emocionante ver os créditos finais e saber que eu
havia fechado aquele game. Eu havia finalmente conhecido as origens da franquia
com meus próprios olhos, sentido o gosto, visto o que Fallout realmente
representava em sua essência. Mas o escopo e escala do primeiro jogo é bem menor em relação
ao segundo. É quase como se o Fallout 1 fosse uma DLC Prequel do 2. Desde que comecei o primeiro jogo eu já ouvia falar do segundo, muitos que jogaram diziam ser
o melhor jogo de PC já feito, um dos melhores RPGs de todos os tempos e que o
tamanho era consideravelmente maior. E agora que tinha finalizado o 1 não havia
barreiras entre mim e o Fallout 2, só o medo de me comprometer em algo tão
grande.
“Give me a kiss to build a dream on”
Um pouco de história. Fallout 2 se inicia 80 anos após o primeiro, na mesma região, avançando ainda mais na timeline daquele mundo destruído pela guerra. Logicamente o protagonista é um personagem diferente. Você deve pensar:
"Então eles quiseram tomar um rumo diferente na história, fazer algo novo
sem ficar preso a narrativa do primeiro jogo." É isso que eu pensei também
e é onde fui surpreendido. Se tem uma coisa que Fallout 2 não faz é fugir ou
deixar de lado a história já contada. Na verdade, dá ainda mais reforço a ela. A história é muito bem amarrada ao do primeiro que influencia diretamente o
segundo. E ainda nos permite visualizar o futuro daquele mundo que vivenciamos no Fallout 1. Enquanto no primeiro jogo nós tínhamos um vislumbre de pequenas sociedades tomando forma, agora podemos presenciar cidades já estabelecidas e comércios prósperos, cultura e descendências.
Os jogos não tem save import, existe uma lore pré estabelecida que é
utilizada pelo Fallout 2, porém afeta pouco as mudanças causadas pelo jogador no primeiro jogo.
Lembro só de uma única diferença no prosseguimento da história que teve alteração em relação
a algo que fiz no Fallout 1, mas nada que decepcionasse. É mais uma ordem um pouco diferente dos acontecimentos, mas os acontecimentos permanecem os mesmos.
Agora nós controlamos o
personagem conhecido como The Chosen One (O Escolhido), descendente de uma
tribo originada pelo Vault Dweller, o protagonista do primeiro jogo. Então seu
personagem é um tatara-alguma-coisa-neto dele. Sua tribo está passando por uma
seca devastadora e corre o risco de ser exterminada. Para salvá-la, você foi
escolhido pela anciã da sua vila a embarcar numa grande jornada e localizar um dispositivo chamado G.E.C.K. Esse dispositivo
milagroso seria capaz de restaurar o solo e fazer as plantações florescerem,
salvando toda a tribo. [...]
E assim começa
a jornada no Fallout 2, de forma simples e despretensiosa. Você é apenas um tribal
querendo salvar seu povo da seca. Sem garantias, sem o grande dever de trazer ordem e
prosperidade para aquele mundo sem esperança. Apenas localize o GECK e trago-o
para sua tribo, essa é sua missão. O jogo começa calmo, sem pressa. Antes de sair em sua viagem, você
precisa realizar uma dungeon que serve de tutorial, ao completa-la você terá acesso
a sua tribo onde poderá conhecer seus familiares e ajuda-los em pequenas
coisas. Faça algumas perguntas, assente-se naquele mundo e finalmente você
estará pronto para encarar a Wasteland.
No início, tudo que você tem em mãos é uma lança e
uma bolsa com alguns suprimentos. Ao sair da sua
vila e finalmente encarar os ermos você encontrará a primeira cidade do jogo,
Klamath. E a melhor maneira de procurar algo que você nem sabe ao certo da
existência ou da localização é perguntando. Com isso o jogo começa a tomar forma. Cada NPC
que passar pelo seu caminho é valioso e pode ter a informação que você
precisa. Além disso, é preciso explorar o máximo possível da cidade em busca
de itens que te ajudem a suportar a jornada, pois eu posso garantir que não
será nada fácil. E se hoje em dia nada é de graça, muito menos no fim do mundo. Pra obter informações das pessoas, será necessário fazer
algum favor para elas em troca. As quests do jogo funcionam de forma
orgânica, seu desejo de explorar os locais e de conhecer mais sobre aquele
mundo ou sobre aquela cidade vão liberando novos leques. Em pouco tempo você já
se encontra com uma lista de quests pendentes e elas serão importantes, seja para aprender sobre aquelas pessoas, seja para adquirir
experiência e itens melhores.
Em relação a quest principal notei uma grande distorção entre os primeiros jogos e os atuais. Pra quem já jogou
os Fallout modernos entenderá bem o que vou dizer. Você inicia o jogo com um
claro objetivo em mente, mas ao explorar o mundo e ir liberando novas quests, é
muito fácil você se perder completamente do seu objetivo principal e deixa-lo
de lado ou até esquecê-lo. Isso definitivamente não acontece no Fallout 2.
Embora você fique engajado com a lore de cada cidade e os segredos delas,
você nunca perde o seu objetivo de vista. Há um senso de urgência muito forte
que o jogo consegue transmitir muito bem, mesmo não contendo um limitador
específico de tempo como no Fallout 1. A quest principal é quase como um fantasma que fica no seu ouvido te dizendo que você precisa salvar sua tribo logo. E para aumentar essa
tensão, conforme o tempo avança no jogo você receberá visões do xamã da sua
tribo dizendo que o tempo está se encurtando e que a vida na vila está cada vez
mais complicada.
No
Fallout 1, após entender como o jogo funcionava, eu já era capaz de andar com minhas próprias pernas. Em contrapartida, as coisas no Fallout 2 se mostraram um pouco embaraçosas. Eu comecei o
jogo confiante, já havia terminado o primeiro e sabia como me virar. No
entanto, este jogo é muito ingrato com o jogador logo nas primeiras
horas. Acho que posso dizer tranquilamente que é o início de jogo mais difícil
que já vi, eu realmente suei para conseguir me tornar independente.
Você começa com skills points muito baixos e apenas com uma lança, isso faz com
que seu dano seja patético e seu personagem erre a maioria dos ataques.
Enquanto no Fallout 1 eu rapidamente consegui uma pistola, lembro de ter levado boas horas para conseguir a primeira arma no Fallout 2. É quase como
se o jogo te dissesse: “Se você passar do início, estará pronto para terminar”.
O looping do jogo, aquilo que você sempre repete de tempos em tempos, funciona de forma simples: Você entra numa cidade, conversa com os NPCs, adquire informações e
então receberá quests e a localização de outros locais que você poderá visitar.
Após terminar as quests e explorado aquela cidade, você está
pronto pra partir para outra e terá de repetir o processo. Cada cidade funciona
de forma diferente da outra e há sempre alguma coisa acontecendo nelas. Uma
pessoa desaparecida, um criminoso que comanda a cidade, disputas de território
entre facções rivais, raiders que agem sem nenhum senso moral... Rapidamente
você se vê envolvido num amontoado de quests, com algumas que se cruzam. Uma
leva a outra, algumas entram em conflito com outras e você terá que tomar decisões quanto a isso. O sentimento de realidade do jogo é muito bem representado. O sistema de diálogo é complexos e bem estruturado. Em momento algum eu fiquei enjoado ou entediado achando que estava fazendo quests sem sentido ou repetitivas.
Como disse no
início, a história do jogo começa com um escopo pequeno e vai ganhando novas
proporções com o decorrer das coisas. Com o tempo você vai notando que coisas
estranhas estão acontecendo à sua volta e que há “algo” ou “alguém”
fazendo alguma coisa. Esse é um aspecto interessante a respeito da franquia
Fallout como um todo, que acontece em todos os jogos da franquia. A história
sempre começa de forma objetiva e vai se transformando em algo maior, ganhando
proporções maiores que o seu próprio personagem. Em Fallout 2 isso é feito de
forma primorosa. Enquanto você caminha humildemente em busca do G.E.C.K para
salvar sua tribo, você encontrará pelo caminho coisas maiores do que você,
muita das vezes impossíveis de se lidar naquele momento do jogo. Você precisa
aceitar que aquilo não te diz respeito ou que você não tem o poder para
resolver as coisas no momento. É o jogo brincando com seu ego, com seu senso de
heroísmo herdado de tantos outros jogos. Mas sua função é apenas uma: salve sua
tribo. E a dificuldade do jogo é bem ajustada a isso: você não terá chance
alguma de lidar com situações de nível mais alto. O jogo é bem punitivo no
combate e você vai se surpreender em como é fácil morrer. Também é um contraponto entre o Fallout 3 em diante, nesses jogos, com alguma estratégia você é capaz de abater inimigos fortes logo no início e se dar bem. No Fallout 2 é impossível fazer isso.
Também existem
quests interligadas entre cidades. Por exemplo, ao chegar em determinada cidade
você descobrirá que eles possuem um problema central que precisa ser resolvido.
E esse problema está interligado com outra cidade, que também possui seus
próprios problemas. A forma como você lidará com cada uma delas determinará os
finais daquelas cidades. Você vai ajudar uma cidade e ignorará a outra? Você
vai ajudar as duas? E como determinar qual cidade possui interesses genuínos ou
obscuros? Talvez ajudando uma delas você esteja arruinando a outra, ou talvez
você consiga uma forma de reconciliar as duas... Há uma forte dualidade
envolvida em todo jogo que toca cada cidade e cada NPC. Em algumas situações é
fácil perceber quem é um bom sujeito e quem é um grande mal caráter, mas assim
como na vida real, há muitos lobos em pele de cordeiros. Ao ajudar alguém
talvez você nem imagine o mal que está causando. Ou então você só quer concluir
alguns trabalhos, conseguir algum dinheiro e suprimentos sem saber no que isso
resultará.
Eu digo para
vocês, Fallout 2 é um dos RPGs mais completos que já joguei. Existe um sistema bem montado para cada
diálogo, para cada ação que possa ser tomada e as consequências dessas ações. Há uma
infinidade de diálogos disponíveis no jogo e diversas formas de se lidar com
cada um deles. Para tudo no jogo há pelo menos duas ou mais formas de se
resolver. E tudo depende de você. Você tem Speech alto para resolver as coisas na conversa? Você tem dinheiro suficiente pra resolver aquela situação com o poder do bolso? Ou talvez você possa resolver com o poder de fogo mesmo.
É um jogo que te oferece liberdade extrema para fazer o que quiser da maneira que quiser. Porém, infelizmente isso vem acompanhado de alguns adendos. É muito comum tomar atitudes que
você não queria e seguir por um caminho totalmente diferente do que você
esperava. Então o save/load acaba se tornando a coisa mais importante desse
jogo. Salvar e dar reload talvez seja a coisa que você mais vai fazer aqui. É
inteligente salvar o jogo antes de falar com cada NPC, ao entrar em uma nova
localização e antes de possíveis combates, ou mesmo após jogar por alguns
minutos, é um jogo antigo e você nunca sabe quando ele pode crashar. E ter que rejogar mesmo que sejam alguns minutos pode ser estressante.
Talvez você queira ouvir isso um pouco: https://www.youtube.com/watch?v=vGyB093QOIo&t=2053s
A respeito da
imersão, Fallout 2 é um dos jogos mais imersivos que já joguei. Claro que de um
jeito diferente do habitual. Lembre-se que é um jogo com visão isométrica e
gráficos de massinha, não é possível se comparar a um FPS. No entanto,
a atmosfera apocalíptica que o jogo passa é sem igual. E o principal
componente dessa imersão é a música.
No geral o som ambiente é silencioso,
dando espaço para os sons produzidos pelas criaturas e pelo barulho das armas,
portas, trancas e etc. Isso ajuda a criar um clima frio que combina bem com o
cenário pós-apocalíptico. No entanto, o jogo possui uma soundtrack original que
toca em algumas cidades ou localizações. O toque de cada uma delas é como um
mergulho dentro do apocalipse. Se você estiver usando um bom headset, você será
tomado por uma sensação singular. São músicas que invocam um tema de terror e
devastação absoluto, você chega a quase sentir medo. Diferente dos jogos atuais
onde a Bethesda optou por músicas de rádio divertidas durante o gameplay,
Fallout 1 e 2 são jogos introspectivos, com uma temática pesada e sombria. É de
arder o coração. É simplesmente impressionante como as músicas invocam um
ambiente de completa solidão e perigo sem igual. Esse aspecto vale para ambos
os jogos já que o Fallout 2 compartilha músicas do primeiro.
Há também músicas
exclusivas do Fallout 2 com toques tribais, remetendo diretamente à sua origem.
É realmente impressionante, faz você se sentir em uma sociedade primitiva e
fazendo parte dela. E tudo isso combinado aos sons precisos das armas e
criaturas, grunhidos e até mesmo mutilações. Sim, ao acertar danos críticos é
possível decepar membros ou mesmo explodir alguns inimigos e ouvir seus gritos
de agonia ou seus corpos se despedaçando. Arrepiante. Se os Fallout 1 e 2 pecam
em termos gráficos, eles compensam de todas as formas por meio da soundtrack.
Mas não é
apenas na música que o jogo sustenta essa imersão. Vamos lá, você precisa usar
um pouco da sua imaginação pra entrar nesse mundo, levando em conta os gráficos e as dificuldades de se controlar o personagem e gerenciar como as
coisas andam no geral. Os diálogos com NPCs são dados por meio de uma caixa que
simula o PipBoy, aquele dispositivo que você carrega no braço. Na parte de cima haverá o texto do NPC e embaixo as suas
opções de resposta. Existem muitas opções que você pode escolher, você pode ir
direto ao ponto, tentar obter o máximo de informação que conseguir ou
simplesmente manda-lo se f... E claro que se você deixar um NPC zangado ele vai
ataca-lo sem hesitar, e a única maneira de contornar isso é matando-o ou
retornando o save. Mais uma vez, veja a importância de salvar o jogo
constantemente. Assim como no mundo real, há NPCs que se ofendem muito
facilmente e você pode acabar estragando tudo sem querer. Pior ainda, você pode
fazer uma cidade inteira se voltar contra você por usar algumas palavras
erradas. Então é importante ficar ligado na forma como você fala com os outros.
Uma das coisas mais interessantes do jogo é a mudança
de feeling ou dinâmica de gameplay.
Estou procurando a melhor forma de me expressar quanto a isso, mas acho que é
mais fácil explicando mesmo. O jogo possui um certo feeling, por exemplo: Enquanto você está com sua tribo, fazendo
quests para ela e ouvindo aquelas músicas tribais você se sente um indígena num
cenário apocalíptico. Algumas horas depois você pode estar numa cidade pequena
com muitas fazendas e pessoas humildes e tendo que lidar com problemas
diferentes, talvez um NPC lhe peça ajuda para cuidar do gado ou impedir
que pragas destruam sua plantação ou mesmo que predadores matem seu gado. Há
gados demais nesse jogo.
Saindo dali você pode se deparar com uma cidade grande
com muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, pessoas com estilos completamente
diferentes, formas de se expressar diferente e um amontoado de novas mecânicas
de gameplay. Talvez você tenha que lidar com raiders ou vendedores de drogas
que comandam a cidade, ou mesmo escravagistas desgraçados que mantêm pessoas
literalmente trancadas em gaiolas.
Percebem como a dinâmica do jogo muda
completamente? É como se estivesse jogando um outro jogo de gênero diferente. E
pra mim uma das melhores mudanças de dinâmica é quando você se depara com
ruínas de instalações governamentais pré-guerra, locais abandonados, porém de
alta tecnologia com um amontoado de coisas para se descobrir. Você rapidamente
se encontra curioso sobre toda aquela tecnologia, tendo que lidar com robôs
acionados pelo sistema de segurança do local, tentando hackear computadores
para adquirir informações valiosas ou lendo arquivos/textos de antes da guerra.
Você se sente em um verdadeiro sci-fi e pra mim esses são os momentos mágicos
do jogo, em que eu me encontrava mais imerso e curioso sobre até onde eu
poderia descobrir, até onde eu poderia ir, o que mais eu poderia fazer além de
tudo que eu já tinha feito.
E nesses
momentos você consegue sentir a riqueza de detalhes que foi colocada no jogo,
como aquela lore foi bem trabalhada e bem preparada para que tudo acontecesse
no momento certo. Você não vai estar lidando com robôs ou hackeando
computadores tão cedo no game, isso surge mais pra frente e faz com que o jogo
não se torne enjoativo. E preciso dizer que lidar com computadores é uma das
coisas mais complexas e divertidas do game, porém que consomem bastante tempo.
Fallout é um RPG, então seu sucesso com a tecnologia vai depender muito da sua
skill de Science. Com uma Science baixa talvez você não consiga fazer muita
coisa, porém dependendo do nível de Science você pode hackear o computador e desativar
as defesas automáticas, desativar a energia do local ou campos de força que te
impedem de passar por certas áreas ou simplesmente conseguir informações
valiosas sobre aquele local ou a lore do jogo em geral.
E aqui entra mais uma
vez a importância do save, pois ao acessar um computador de forma incorreta,
você pode perder completamente o acesso a ele ou até mesmo acionar alarmes de emergência que dificultarão sua vida. Então talvez você queira
dar reload para testar novas alternativas. Há também alguns computadores no
jogo que estão criptografados por meio de códigos, dessa forma você não
consegue ver as opções claramente, como por exemplo: “Acessar o sistema de
energia do local”. Em vez disso, talvez você veja apenas mensagens como
“XSA54XSA54”. Como saber o que aquela função faz? Exatamente, você terá que
ficar tentando e tentando até entender a codificação. E devo dizer que o jogo
guarda grandes surpresas nesses momentos, inclusive em funções que são
liberadas dependendo do que você faça. Então sim, é possível que você faça
“todas” as opções possíveis e vá embora, mas talvez se você voltar e tentar
fuçar um pouco mais você consiga liberar uma função nova com algo
superinteressante. Eu diria que é um jogo um pouco sádico muitas das vezes.
Outro aspecto
que amo em Fallout 2 é a forma como o jogo lida com assuntos polêmicos de forma corajosa. Talvez você tenha jogado ou esteja jogando agora jogos que tocam em
assuntos delicados, mas você sente que o jogo não aborda o assunto com a
profundidade necessária, ele tenta comer pela beirada para não ir fundo demais
e acabar derrapando num assunto polêmico. Ou o faz de forma medíocre. Em
Fallout 2 isso não acontece. O jogo possui um tom humorístico bastante ácido e
lida com todo tipo de situações.
Primeiro de tudo, há crianças no jogo (se você
não estiver jogando a versão censurada) e você pode lidar com elas de várias
formas. Conversar, fazer algumas quests e até mesmo matá-las se quiser.
Segundo, algo que você vai se deparar bem cedo no game é com escravos. Há
escravagistas que literalmente colocam pessoas em jaulas e as tratam como
animais ou menos que isso. E o jogo aborda esse tema de várias formas
diferentes. No decorrer do game, eu me deparei com outras formas de escravidão
não tão explícitas quanto essa. Nem todos os NPCs são vilões descarados que escravizam pessoas à força e as colocam em jaulas. Alguns tomam posse de outras pessoas "por espontânea vontade", outras possuem um
comportamento abertamente preconceituoso. E há ainda aqueles que escondem isso,
se passando por boas pessoas ou até acreditando estarem fazendo o bem, mas visualizando
bem a situação você vê que o buraco é mais embaixo.
O jogo também aborda questões
como uso de drogas, prostituição, corrupção, xenofobia, racismo, autoritarismo, embriaguez, religião, guerra, política e tudo que tem direito. E veja bem, Fallout é um jogo que se trata de liberdade. Então
você decide a forma como vai lidar com cada um desses assuntos. Não há
restrições quanto ao que você pode fazer ou não. Você pretende matar o líder
dos escravagistas e libertar as pessoas presas em gaiolas? Ótimo. Mas você
também pode se aliar a ele e capturar pessoas como escravos ou até mesmo
vendê-las.
E a dificuldade do jogo é muito bem adaptada a essas questões. Por
exemplo, se você for um cara bonzinho e quiser acabar com a escravidão numa
determinada cidade, não pense que é só chegar e matar os escravagistas.
Provavelmente você não terá nenhuma chance no início e vai demorar um bocado
até que você tenha o que é necessário para comprar aquela briga. E se você
matar um traficante de drogas, pode ser que gangues aliadas te persigam o jogo
inteiro em busca de vingança.
O único modo que o jogo filtra suas ações é por
meio de um sistema de karma, onde fazendo coisas boas você adquire karma
positivo e terá alguns pequenos benefícios, como ser reconhecido pelos
habitantes locais ou ganhar alguns descontos, mas isso não influencia muito
o gameplay de forma geral. Também notei como é mais fácil se dar bem no jogo sendo um vilão, afinal, matando e roubando pessoas você terá uma facilidade
muito maior para adquirir itens e suprimentos do que se estiver jogando de forma honesta.
Eu gosto muito
da forma com que o jogo brinca com sua moralidade como jogador. Em muitas
situações você se verá contra a parede. Se você quiser ser uma boa pessoa e
fazer tudo certo, você terá uma enorme dificuldade em alguns momentos e poderia
facilmente se livrar da dor de cabeça fazendo o que é errado. Talvez você
pense: “E se eu agir errado só dessa vez?”, “É muito mais fácil eu simplesmente
matar essas pessoas do que gastar toda essa quantidade de dinheiro ou tentar
resolver os assuntos de forma diplomática”. Ou talvez você precise fazer
pequenos atos ruins para conseguir um bem maior, mas até que ponto você está
disposto a se corromper? Talvez você tenha começado o jogo com uma mentalidade
e mudado completamente no meio do caminho. Como já citei anteriormente, nem
sempre é explícito quem é vilão e quem é mocinho, nem todo NPC diz a verdade,
nem tudo é o que parece ser.
E indo mais além, o jogo te dá liberdade para lidar à sua maneira com outras raças e o modo com que você enxerga elas. Fallout é um dos jogos mais vastos em termos de raças diferentes. Você pode entrar em uma cidade e aprender que os Ghouls são seres monstruosos que merecem ser extintos e depois topar com uma cidade de Ghouls e ver que talvez eles não sejam da forma que contaram. Ou você pode ser intolerante com Super Mutantes ao mesmo tempo em que terá que lidar com Super Mutantes que são pacíficos, você tratará todos iguais? O Fallout 2 em especial é o mais vasto nesse aspecto do que todos os outros Fallout, eu realmente me senti surpreendido em alguns momentos em que não fazia ideia de como agir com determinados grupos ou facções. Eu devo confiar neles? Eles estão dizendo a verdade? Essas dúvidas permanecem com você o tempo inteiro, ainda mais quando você tem que lidar com raças que você não conhece muito bem ou que são novas no jogo.

Talvez eu
esteja fazendo parecer que Fallout 2 é uma experiência incrível e maravilhosa o
tempo todo, mas embora os pontos altos do jogo sejam realmente impressionantes,
os pontos baixos também não são mera casualidade. O jogo realmente pode ir do
céu ao inferno num piscar de olhos. É importante lembrar que por ser um jogo de
1998 isso já não torna as coisas tão simples, qualquer jogo dessa época é um
pouco complicado de se jogar, principalmente por aqueles que estão habituados
com os jogos atuais e que nunca jogaram jogos dessa época. Mas sinceramente
esse é o menor dos problemas.
Os sistemas do jogo num geral são muito
precários, não há esclarecimento algum sobre como se faz as coisas. Lembro que
quando comecei o Fallout 1 eu não sabia nem como andar. Você vai precisar de um
longo tempo pra aprender a pegar itens, utilizar itens, abrir loot, equipar e
desequipar itens, atacar, fugir, abrir contêineres, arrombar trancas, explodir obstáculos
no caminho, gerenciar companions, interagir com o mapa e principalmente
concluir quests. Como disse lá no início, eu comecei Fallout 2 já sabendo de
quase tudo por ter jogado o primeiro e mesmo assim a experiência não foi nem um
pouco fácil. Pelo contrário, foi muito mais difícil. O Fallout 2 exige muito
mais do jogador em tudo. E fora isso existem os bugs... Eles são quase
infinitos. Absolutamente tudo nesse jogo está sujeito a bugar e ele pode
crashar a qualquer momento por qualquer motivo. Na minha experiência eu tive
muitos NPCs que bugavam, eu não era capaz de interagir com eles e se eu
tentasse o jogo fechava ou simplesmente aparecia “Error” no lugar das falas e
respostas. Também perdi dois companheiros chave enquanto jogava e até agora não
sei como, eles apenas sumiram e eu não tinha mais save para retornar e desfazer
isso.
E a dificuldade do combate é absurda. Eu posso dizer com facilidade que
Fallout 2 é o jogo mais difícil que já joguei e isso pode ser uma grande constatação
vindo de alguém que platinou a maioria dos jogos da From Software. O combate do
jogo funciona como em um RPG de mesa, com um dado invisível (skill roll) que
fica girando a medida que você toma certas ações. E isso cria situações
adversas, em que as vezes um inimigo tire o valor máximo desse dado e lhe dê um
golpe crítico. Sem mais nem menos, sem nenhuma chance de reação, você vai
perder toda a sua vida e receber um belo game over. Eu não estou brincando
quando digo que esse é um jogo que necessita de save e reload. É quase como um
Life is Strange ambulante em que você precisa usar os poderes da Max a cada minuto
pra assegurar que você não vai jogar tudo pro alto. Eu passei muito, muito,
muito estresse jogando Fallout 2. Eu busquei jogar por conta própria o máximo
que eu podia, olhando algum guia rápido apenas pra me situar ou me dar alguma
luz. Também tem o fato que o early game é extremamente complicado, até chegar
um ponto em que você consiga se virar sozinho leva tempo.
Eu lembro que
comecei o jogo pela primeira vez ainda no ano passado, joguei por alguns dias e depois larguei o jogo. Voltei
esse ano há algumas semanas, retomei o meu save antigo e por muito muito pouco eu não larguei o
jogo novamente porque simplesmente eu havia esquecido tudo e não me sentia capaz de
continuar. Eu precisei de algumas horas jogando e rejogando pra finalmente me
situar e conseguir andar com as próprias pernas novamente. E aliado a tudo isso
tem o fato do jogo ser longo, muito muito longo. Eu devo ter terminado em torno
de umas 100h mais ou menos, talvez ainda mais do que isso.
Infelizmente o jogo
não possui um contador pra verificar. E o realismo que o jogo apresenta torna as
coisas ainda mais difíceis, pois há vários empecilhos que você terá que tomar
cuidado. Por exemplo, você não pode estar carregando armas em cidades ou então
os guardas locais se voltarão contra você. Algumas cidades tem toque de
recolher, então você precisa sair à noite e voltar somente no outro dia. É
preciso tomar um certo cuidado com a radiação no início do jogo. Você pode
receber danos nos membros e ficar aleijado ou incapaz de utilizar armas e então
terá que utilizar um kit médico. Você pode ser envenenado e perderá vida
constantemente até que tome um antídoto. O peso do que você pode carregar é
extremamente limitado e você vai ter que dosar muito bem o que levar ou não. E
alguns companions não são permitidos em determinadas cidades porque os
residentes são preconceituosos e não permitem a entrada de algumas raças, então
você terá que se despedir dele, entrar na cidade e na volta chama-lo de volta.
Cuidado pra não acabar esquecendo dele.
E talvez uma
das piores coisas do jogo sejam os encontros aleatórios que aparecem enquanto
você está navegando no mapa. Ao sair de uma cidade, aparecerá o mapa do jogo na
tela e você terá que clicar em um destino. Durante a jornada você acompanhará
seu personagem atravessado o mapa por meio de um pontinho vermelho cruzando a
tela. O tempo todo surgirão encontros aleatórios, como por exemplo, ser
emboscado por escorpiões, saqueadores, assassinos ou criaturas do local. Esses
encontros são extremamente difíceis e você gastará muito recurso pra passar por
eles, se é que vai conseguir sair vivo. O jeito mais fácil de driblar isso é
salvar o jogo antes de sair de uma cidade e caso esbarre em algo muito difícil,
dê reload e tente de novo. Dependendo da distância dos locais isso pode levar
longos minutos até que você finalmente chegue ao seu destino. É um pé no saco e
extremamente irritante.
Bom, como minha
intenção não é escrever um livro eu fico por aqui. Meu objetivo com esse texto
era dizer como foi minha experiência com o jogo e falar um pouco sobre ele. Não
queria que fosse uma análise, mas talvez tenha sido em alguns momentos. Eu não
estou tão acostumado em escrever coisas desse tamanho, então aprecio o feedback
se você chegou até aqui. Eu recomendo muitíssimo esse jogo para quem já conhece
a franquia Fallout e quer se aventurar nas origens. Caso você nunca tenha
jogado Fallout na vida, recomendo fortemente que você comece pelo 4 ou pelos
primeiros da Bethesda. Nada de Fallout 76 por favor. Eu joguei todos os Fallout
com exceção do New Vegas e na minha opinião, Fallout 2 é o mais complexo, que
possui a melhor história e que mais honra toda a franquia. Eu literalmente
chorei de emoção ao terminar esse jogo, não pela história em si, mas pela
conquista de ter conseguido passar por tudo isso. É uma jornada inesquecível e
foi um grande marco na minha vida como gamer.
Quer dar uma chance?
Se você
pretende jogar Fallout 2, eu gostaria de te dar algumas dicas valiosas, então
presta atenção.
- Jogue Fallout 1
- Você precisa ter um certo domínio do inglês. Pelo menos conseguir ler textos sozinho e talvez usar algum tradutor pra ajudar em uma coisa ou outra que você não entendeu. Fora isso, eu não recomendo. Existem algumas traduções na internet, mas nenhuma delas é completa, a maior parte do jogo continuará em inglês. E por ser um jogo antigo acaba tendo um inglês um pouco repuxado, com muitas gírias e termos abreviados ou palavras e expressões que não são comuns hoje, então sem um certo domínio na língua não vai dar certo.
- Você vai precisar de um guia. Você pode fazer como eu e tentar jogar sozinho, mas eventualmente você terá que olhar um guia pra saber como fazer algumas coisas ou concluir determinadas quests. É bom dar uma estudada de leve sobre o jogo e os comandos antes de começar. Se você não se importa em receber spoiler ou de ter sua própria experiência sozinho, pode jogar seguindo o guia inteiro. No meu caso, eu joguei sozinho o máximo que pude e quando não via mais alternativa ou precisava saber como proceder em algumas coisas, eu procurava um guia especificamente sobre aquela parte e então voltava a jogar sozinho. O guia também é importante por causa dos bugs, então é bom ter uma pequena ideia do que você precisa fazer pois você pode acabar quebrando o jogo sem querer e isso não é nada legal.
- Salve, salve, salve. Deu 10 passos? Salve. Antes de falar com qualquer NPC salve. Antes de cada combate salve. Use vários slots diferentes para não correr o risco de corromper ou então de fazer algo que você se arrependa profundamente. Você precisa ter em mente que esse é um jogo que você terá que refazer a mesma coisa várias vezes até compreender como funciona.
- Eu realmente recomendo que você veja algum guia sobre como montar seu personagem para que você não acabe criando um personagem completamente inútil e isso estrague seu gameplay. O criador de personagens é muito complexo e isso afeta grandemente em algumas coisas no jogo, ao passo que há muitas coisas que você pode acabar investindo que parecem boas mas são inúteis. Como por exemplo, Inteligência é o melhor investimento, ao passo que Resistência não muda praticamente nada.
- O Fallout 2 possui várias versões disponíveis. Eu recomendo que você procure pela versão mais atualizada possível e que contenha as crianças, pois elas foram removidas em algumas versões. Você também pode optar pelo Restoration Mod v.2.3.3 que adiciona todo conteúdo que foi cortado do jogo original, adiciona melhorias e conserta uma tonelada de bugs. Eu recomendo fortemente que você jogue com esse mod, porque os conteúdos cortados são primordiais, eu não consigo imaginar esse jogo sem eles, sem falar das melhorias. O único defeito mesmo é que torna o jogo excessivamente mais longo, afinal, mais conteúdo. No entanto, vale a pena.
- Seja paciente e não desanime. A recompensa é grande. Você consegue. Eu consegui.
- Se esse jogo fosse uma pessoa, essa seria a mãe: https://fallout.fandom.com/zh/wiki/The_Nearly_Ultimate_Fallout_2_Guide
- E esse site aqui possui toda a informação existente a respeito de Fallout e especificamente do Fallout 2. Sem ele eu não teria chegado no fim. https://fallout.fandom.com/wiki/Fallout_Wiki
- E claro, o google também está aí.
Espero ter
honrado tudo o que esse jogo representa com minhas palavras, certamente deixei
muita coisa de fora, mas assim como o jogo é infinito, acredito que falar dele
também seja.









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