Dark Souls after Bloodborne

Em 2018 eu fiz minha primeira entrada no universo SoulsBorne. Sim, eu estava bem atrasado. Porém meu interesse pela franquia era longo, desde o lançamento do Dark Souls 2, eu diria. Um jogo tão difícil que talvez eu não conseguisse terminar? Os jogos da FromSoftware já me intrigavam antes mesmo de eu tocar neles. Eles estavam lá, esperando em minha mente, esperando para serem jogados. E foi quando Bloodborne saiu na PSPlus que aconteceu meu start. Não havia mais desculpas, se eu não ia até o jogo, ele veio até mim. Quase como um desafio: jogue-me.

E assim Bloodborne veio e se foi, zerei e platinei. Não havia mais o que fazer nele. Eu já havia saciado e muito meu desejo de entrar nesse universo, mas ainda havia o incômodo de nunca ter jogado Dark Souls. Também havia o receio de que talvez eu tivesse perdido o tempo do jogo, afinal Bloodborne era uma evolução em termos de gameplay e temática, e ainda em dificuldade. Era um jogo agressivo ambientado no século XIX, bem diferente da temática medieval e defensiva de Dark Souls. Eu iria me adaptar aos gráficos? Aos controles? O jogo seria mais fácil por eu já ter experienciado "algo pior"?

Eis que é lançado em maio de 2018 o Dark Souls: Remastered. Não poderia ser melhor. Mas infelizmente eu teria que esperar mais, no momento não tive condições de adquiri-lo com a onda de lançamentos daquele ano. Eu só teria a oportunidade de jogá-lo em janeiro deste ano quando entrou em uma promoção. E assim como aconteceu com Bloodborne, não havia mais desculpas. Se eu não ia até o jogo, ele vinha até mim. É engraçado como a história se repetiu.

E foi nesse contexto que eu entrei nas terras de Lordran. Já calejado por Bloodborne, eu sentia que saberia lidar com todas as adversidades daquele mundo de alguma forma. Bem, de fato eu consegui, mas não sem passar por todo o processo de catarse que é intrínseco da franquia. Eu costumo dizer que o primeiro sentimento ao entrar nos jogos da FromSoftware é confusão. Todo o resto vem depois. E o sentimento já começa ao criar seu personagem, com todas aquelas opções de classes e atributos que você não faz ideia do que significam. Qual é a melhor classe? Qual a melhor dádiva? O que é fé? Conhecimento? Você escolhe o que lhe trouxer mais segurança e segue em frente.

Os jogos começam subitamente lineares, te dão uma falsa sensação de que basta seguir em frente e com cautela que tudo dará certo. Mas não demora muito até você se ver tomado por um mapa cheio de caminhos e inimigos diferentes, e um leque de opções para evoluir seu personagem: a confusão já está instaurada. Nesse aspecto, Bloodborne é bem mais simples e direto, você não tem classes e possui poucos atributos para evoluir, além dos caminhos iniciais serem objetivos.

Provavelmente foi no momento em que me vi perdido pela primeira vez no mapa de Dark Souls, bem no início, que cheguei a conclusão que talvez os inimigos não fossem a maior dificuldade do jogo. A maior dificuldade seria avançar, desvendar os caminhos que eu teria que percorrer e lidar com as mais variadas armadilhas espalhadas pelo mapa. Nesse ponto eu já pude discernir quais seriam as principais diferenças entre os dois jogos. Bloodborne apresentava dificuldade nos combates, na variação de inimigos e principalmente nos bosses. Dark Souls me desafiaria na progressão, eu seria capaz de avançar no jogo por conta própria? De aprimorar meu personagem do modo correto ou até mesmo adquirir um equipamento decente? Não que Bloodborne não fosse igualmente difícil nesse aspecto, mas Dark Souls com certeza é mais amargo, levando em conta o level design das fases, as armadilhas, os inimigos e até as particularidades que cada área possui.

Uma das principais diferenças a respeito do gameplay é o que citei anteriormente a respeito de Bloodborne ser mais agressivo enquanto Dark Souls seria o oposto. Em Bloodborne temos uma arma melee e uma pistola, nossa maior defesa contra os ataques inimigos é a esquiva e o contra-ataque. Em Dark Souls a dinâmica de combate é bem diferente porque possuímos um escudo. É nele que você vai depositar toda sua insegurança enquanto desvenda novas áreas e novos inimigos.

Eu diria que minha experiência jogando Dark Souls pela primeira vez foi baseada na ignorância. Em meio ao mar de opções que o jogo te oferece eu busquei optar sempre pelo lado mais simples e tradicional, embora isso seja meio ilusório. No fim você descobre que as coisas são mais simples do que parece, mas o desconhecimento faz você enxergar monstros onde não tem. Dessa forma, eu escolhi jogar de Knight e fiz minha build inteiramente baseada em Força, usando os equipamentos mais fortes (e pesados) que encontrava e armas também. Meu personagem se movimentava como se estivesse andando debaixo de lama, devido ao peso dos equipamentos (fator que também não existe em Bloodborne), mas só o que importava pra mim é que eu me mantivesse vivo e seguindo em frente.

Após terminar Bloodborne e passar pelo inferno, o jogo te dá a sensação que a partir daquele momento você é capaz de vencer qualquer coisa, qualquer jogo. Eu comecei Dark Souls com essa sensação, mas o jogo foi reprimindo ela a cada passo que eu dava. Não importava a dificuldade que eu tivesse vencido em Bloodborne, Dark Souls me traria outras em escalas diferentes, até mesmo piores. Cada jogo é único e possui seus próprios demônios.

Mas eis uma diferença interessante entre os dois jogos. Em Bloodborne eu ansiava por progredir no jogo ao liberar novas áreas, porque cada batalha contra boss era um sofrimento longo e demorado, por diversas vezes eu empacava e a única coisa que eu queria era vencer aquele obstáculo e seguir em frente. Enquanto não derrotasse o boss a seguir, o jogo tinha acabado para mim. Por isso, eu aproveitava os momentos em que eu podia explorar e avançar no jogo, sempre temendo o encontro com um novo boss, pois isso significaria repetir o processo angustiante de compreender seus padrões de ataque, morrer algumas dezenas de vezes  e fazer o caminho de volta, para então finalmente derrotá-lo (salvo exceções que são a floresta amaldiçoada e os pesadelos que são torturantes de explorar).

Em Dark Souls, mais uma vez, aconteceu o contrário. Eu tive relativa facilidade com a maioria dos bosses do jogo, seus padrões de ataque e de comportamento são mais simples, a experiência adquirida em Bloodborne com certeza facilitou o jogo nesse aspecto, embora alguns tenham me dado sim muita dor de cabeça. E toda a imponência e desespero que os bosses transmitem a você permanece igual nos dois jogos, você não sente que será capaz de derrotá-lo até que tenha feito isso. O design dos campos de batalha, o design das criaturas e em especial a música criam uma tensão sem igual. Mesmo após derrotar bosses que considero fáceis, eu me encontrava tão tenso a ponto de ter que fazer uma pausa pra respirar para então seguir em frente. É o que eu chamaria de dificuldade psicológica. Não precisa ser difícil, basta você acreditar que é.

No entanto, é no caminho entre os bosses que se encontra a grande dificuldade de Dark Souls. Enquanto em Bloodborne eu temia os bosses, aqui eu ansiava para encontrá-los. É como se cada inimigo no mapa estivesse posicionado das piores maneiras possíveis para dificultar sua vida, e como na maioria das vezes eles estão dispostos em grupos, é preciso ter a paciência de enfrentar um por um. Afobação é igual a morte. E quando digo inimigos, não me refiro apenas aos NPCs programados. As fases em si, combinadas com esses NPCs, formam o quebra cabeça que irá te levar aos limites da paciência. As fases são rodeadas de armadilhas imprevisíveis, quando você percebê-las, provavelmente será tarde demais. Sem contar os buracos, caminhos estreitos, passagens escondidas, locais envenenados... A lista não tem fim. E mais pro fim do jogo a coisa piora: ao ter acesso as áreas finais, cada uma delas possui mecânicas diferentes, uma pior do que a outra, que fará da sua vida um verdadeiro inferno.

Durante minha jogatina de pouco mais de 30 horas, eu me deparei com um impasse. Ao chegar na Cidade das Moléstias (Blight City) e após ter passado por ela, eu acreditava firmemente que havia passado pelo pior do jogo. Todo jogo desse estilo possui fases, que eu gosto de chamar de nojentas, que servem para testar sua paciência. E eu podia jurar que a Cidade das Moléstias era esse algoz. Eu não poderia estar mais enganado. Dark Souls teve a façanha de me surpreender não uma, ou duas, mais várias vezes com fases nojentas, e não importava quão ridículo parecesse, à frente eu encontraria outra pior. Eu passei por locais com caminhos invisíveis, inimigos intermináveis, áreas repletas de lava e locais de repleta escuridão, onde eu só conseguia enxergar a um palmo da minha frente, somado a isso com buracos intermináveis e inimigos gigantescos. Foi excruciante. Menciono aqui a Biblioteca do Duque, os cavaleiros-arqueiros de Anor Londo, a Tumba dos Gigantes a entrada do Capra Demon, fases que chegaram perto de me arrancar lágrimas de ódio.

Não obstante, há aqueles momentos que eu chamo de "é sério?", momentos em que os inimigos e a fase são dispostos com o único objetivo de te estressar. Por exemplo, a respeitar dos cavaleiros-arqueiros onde você precisa atravessar uma ponte estreita enquanto dois soldados atiram fechas gigantes em você, se for acertado, você cai. E a única maneira de passar é derrotando um deles, num lugar ainda mais estreito, onde cada golpe tomado te derrubará de novo. É triste.



Pronto, agora que listei os males e descarreguei minhas frustrações, posso finalmente elogiar o jogo. E preciso destacar a ambientação espetacular, que é de encher os olhos em todos os jogos da franquia. Enquanto em Bloodborne eu admirava a noite cercada pelas torres e casas com aspecto gótico da era vitoriana, Dark Souls dá lugar ao glorioso sol que ilumina as construções e ruínas antigas. As construções são sempre gigantescas e te diminuem o tempo inteiro, fazendo você parecer apenas um visitante indesejado num local esquecido pelo tempo. Nos poucos momentos de paz do jogo, eu gostava de apreciar a vista que se estendia até um horizonte de nuvens com construções destruídas ao fundo. Mesmo com os gráficos datados, o jogo continua belo.

Após essa primeira experiência em Dark Souls, crua e ignorante, ao terminar o jogo eu senti aquele alívio característico da série. É aquele momento em que você larga o controle, respira e contempla a grandiosidade de um feito. Os créditos finais e a música são a recompensa pelo seu esforço e dedicação. Mas Dark Souls, assim como Bloodborne, nunca tem um verdadeiro fim. Você terminou o jogo, mas o desejo de jogar continua em você. De alguma forma você quer continuar passando por aquilo, sabe se lá por que. É o sentimento de catarse em sua forma mais pura.

Então, sem nem mesmo esperar, tomei a liberdade de rejogar o jogo, mas dessa vez acompanhado por um guia. Era a oportunidade de ver tudo o que o jogo tinha a me oferecer e aproveitar o jogo de fato, sem aquele sentimento de confusão e angústia que andam com você a jogatina inteira. E por meio desse guia, que agradeço logo ao primoroso trabalho do canal do Tiops, eu pude descobrir todas as nuances de Dark Souls e sim, enfim, platinar o jogo! É impressionante como a história se repetiu, assim como em Bloodborne, eu não me senti satisfeito em apenas terminar o game. Eu precisava fazer tudo que era possível, conhecer cada local secreto, cada aspecto que eu havia deixado passar.

E posso dizer que foi como ter jogado um novo jogo, pois a quantidade de locais que eu havia deixado passar da primeira vez, desde lugares óbvios até lugares super escondidos, fora os aspectos de evolução de personagem, de aprimoramento de armas e uso de itens, tornaram a experiência muito mais proveitosa e agradável. Eu gosto de dizer que foi o período em que eu realmente me diverti com o jogo. No entanto, não pense que foi por estar seguindo um guia que foi fácil de platinar. Estamos falando de Dark Souls. Não importa se você vê alguém lhe mostrando o caminho e dizendo como fazer, você mesmo precisará fazer se quiser avançar. E a experiência de platinar Dark Souls foi muito, muito mais angustiante que em Bloodborne. Embora Bloodborne tenha momentos que te levarão ao limite da paciência, Dark Souls definitivamente ultrapassa esse limite. Eu me senti inconformado várias vezes, me perguntando se eu realmente queria fazer aquilo. Mas como eu gosto de dizer, a força do ódio é uma das mais motivadoras que existem. A complexidade para se ganhar o troféu de platina é tão alta que eu me pergunto se é possível fazê-lo sem um guia, contanto que você não precise zerar o jogo 50 vezes e gastar umas centenas de horas para conhecer cada aspecto dele.

Mas feito tudo isso, mais uma vez eu estava lá, com o controle largado e respiração fugante. Lembro-me de deitar e ficar longos minutos sentindo a sensação. Foi como ter alçando algo pelo qual você lutou incessantemente, e ao final, se perguntar: E agora? Me senti exatamente igual ao Thanos ao final de Guerra Infinita. Eu consegui? Sim. E o que me custou? Tudo.

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